terça-feira, 18 de agosto de 2009

Grades Derretidas




Você olha a multidão e não compreende a correria, os passos largos, pois todos sempre voltam para o mesmo lugar: lares aconchegantes com sua TVs sintonizadas no mesmo canal, dividas batendo a porta e mais uma noite de sono para carregar a bateria daqueles que necessitam continuar na correria. Humanos são ponteiros de relógios multifuncionais, mas um dia a bateria torna-se não carregável. Gostaria que a minha funcionalidade não terminasse dentro de uma dessas crises onde não consigo explicar o termino de uma história e começo do meu presente. Contudo também não desejo meu fim com um histórico medíocre de vida. Sei que a maioria das pessoas optaria pela morte antes de se verem em uma confusão mental.
Olho o mundo pela janela. Anoto minhas percepções do agora, pois o presente é tão precioso quanto o que já passou. Só assim consigo decifrar-me aos poucos e só assim poderei entender alguma coisa quando o cenário mudar, como é de praxe. Não sei mais explicar meus fins e começos, estou muito confuso. Comigo tenho uma caneta, papéis e uma mochila carregada de cartas que reapareceram, da mesma forma que reapareci aqui sentado, observando um campo urbano. Pelo menos não me vetaram do direito de anotar minhas vidas.

Ainda estou em um quarto de hospital, só que devidamente “livre”. Posso ler-me, todas as minhas cartas continuam intactas. Duas vezes ao dia um médico entra no meu quarto examina minha pressão, pergunta meu nome e minha idade. Depois anota alguma coisa na prancheta e sai. Ontem lhe perguntei o que eu fazia naquele lugar e ele apenas pediu-me para ficar calmo, pois em breve eu teria uma alta. Calmo? Creio que sou a pessoa mais calma do mundo em uma situação tão confusa. Desde que decidi pegar a estrada e ir para a cidade mais quente desse país nada tem tido muito sentido. E ainda assim consegui manter meus nervos controlados, admitindo para mim que todos os acontecimentos são completamente naturais.

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Metamorfose Interrompida



A melodia terminou e a única sonoridade do ambiente vinha de uma perturbável máquina com um som repetitivo. Se não fosse uma melodia horrenda produzida pelos meus batimentos cardíacos talvez fosse algum coração do leito ao lado que produzia uma musicalidade amedrontadora. Nunca gostei de assistir filmes que faziam questão de demonstrar ao público o funcionamento daquelas telas de cores verdes com seu tum, tum, tum, Um barulho ritmado que garante que o artista ao lado ainda pode sobreviver. Isso me fez pensar o quanto nossos órgãos internos são capazes de fazer arte. Fiquei imaginando o surgimento de uma banda que aproveitasse literalmente seu interior para produzir um som autentico ‘Na flatulência o maior percursionista dos novos tempos. No arroto o vocalista mais gutural da parada, nos teclados o paciente com problema cardíacos prestes a morrer. E nas letras um mochileiro, sem mochila, na camisa de força que tem o criativo hábito de inventar histórias sobre si mesmo”

Porém, o único ser concreto, pensante, amarrado e preso em uma camisa de força parece ser esse genial escritor de cartas sem um possível destinatário. Mais uma vez apareço nessa realidade branca e sombria que cheira a medicamentos e confunde minhas realidades. Agora a pouco ouvia a bela e doce melodia de Beatriz. Mas no que posso acreditar? Onde estão minhas milhares de cartas e papeis gastos de lembranças e experiências? Não há ninguém que possa explicar como fui parar aqui e ninguém que possa provar que eu estava lá. Seria isso um pesadelo ou o pesadelo já se foi? Sinto-me enjaulado dentro de mim mesmo e não há portas para que eu possa decidir onde entrar. Apenas sou jogado em uma e depois em outra e assim vem acontecendo desde que decidi contar a mim mesmo minha história. Tem pessoas que existem pelo simples fato de alguém acreditar nelas e meu maior medo é de encarar alguém e perguntar se eu existo e como resposta ser ignorado por não consegui-las fazerem me ouvir. Grite! Grite! Grite! Ordena a voz interior. Contudo aprendi em algum lugar desse mundo que o grito é sempre calado com sedativos sutis: “Acalme-se!”, “Você precisa procurar ajuda”, “Procure um psicólogo, um psiquiatra, um pastor, um guru, um emprego, constitua uma família, coloque o pé no chão” E foi assim que descobri que aquele que não grita não passa de um frasco de anestésico. Lembro-me de um amigo que um dia parou-me na praça e perguntou-me no que eu tinha me transformado, pois ele já não me reconhecia. Não tive respostas, talvez se eu fosse uma borboleta teria uma explicação racional para descrever a incrível capacidade de transformação das lagartas. Mas não havia possibilidades de mostrar-lhe minhas asas já que minha metamorfose foi severamente interrompida por um devorador de casulos. E foi assim que uma pequena parte minha começou a entrar no frasco. É estranho perceber que a prisão não é tão obvia quanto parece, prisão é não ter certeza em qual mundo conquistarei a liberdade de viver com a certeza de que tudo é real. Minhas lembranças mais remotas não se aplicam a infância é como se minha vida tivesse iniciado com a despedida de Beatriz e seu prosseguimento após o encontro de Jamila. Contudo depois de Jamila minha concepção do real foi completamente destruída. Foi como se as portas da percepção de algo novo, duvidoso, conspiratório fosse à verdade vinda de uma nova história de amor. Contudo, questiono-me: Cadê Jamila que desapareceu sem ao menos dizer adeus? Porque seu perfume mistura-se ao mesmo cheiro desse lugar? E porque ainda transporto-me para o mundo construído junto com Beatriz? O pior de tudo é que os dois mundos são necessários e não consigo apagar um e optar por outro.

segunda-feira, 16 de março de 2009

30 Dias




Estávamos sentados no gramado, ela olhou-me do mesmo jeito de sempre, parecia que nunca houve distancia física entre nós. Pensei em contar sobre toda experiência mental que passei. Mas preferi aproveitar cada segundo junto a ela. Nada poderia garantir que aquele momento seria extenso, não existiam garantias de permanência em meus mundos. Beatriz pegou seu violão e tocou uma música que compôs em nosso primeiro mês de casamento.



30 Dias


O inverno trouxe um belo presente
Embrulhado em cartas de um aventureiro
Noites sem sono, noites interpretando seus sonhos
Escritos no pó e no vento

Eu fui e voltei
Olhe para as marcas do meu rosto.
Eu fui e voltei
Olhe para meus fios brancos.

Uma taça de vinho solta no ar
Uma dança desastrosa
Você chegou com a lua
E foi embora com algum cometa.

Eu fui e voltei
Olhe para minhas mãos envelhecidas
Eu fui e voltei
Olhe para o meu jeito de abraçar.

E agora só peço aos Deuses
Que não levem para sempre a sua imagem
Não quero amar alguém que se foi
Não quero receber cartões postais.

Eu fui e voltei
Olhe para a boca que sussurra intenções
Eu fui e voltei
Olhe para o peito que conforta.

Vá e volte por trinta segundos
E repetiremos trinta dias por décadas
Vá e volte com a velocidade da luz
Para que eu nunca perceba sua ausência.



Eu chorei por medo, eu chorei por alegria. Beatriz profetizou nosso futuro. Seria futuro mesmo?Será? Seria?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A Volta




Acordei, olhei para a janela e tudo que consegui enxergar foi à luz vinda por detrás das cortinas. Onde eu estava? Sentado na platéia esperando o início de mais um espetáculo? Não, eu estava em meu quarto, no velho quarto de sempre, na mesma casa de sempre, enrolado no mesmo lençol. Não existia hospital, cheiro de medicamentos ou a voz inconfundível de Jamila. Meus olhos encheram-se de lágrimas, meus ouvidos de êxtase e meu coração batia mais que dez milhões de máquinas de bombear. Sim, era ela! Beatriz cantava lá fora, provavelmente pintava, como sempre, como nos velhos tempos. Tempos de planos bons, tempos de mil promessas de amor.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O Destinatário do Futuro

Nos porões da família orquídeas e opções de compra e desquite.
A gravidez elétrica já não traz delíquios.
Crianças alérgicas trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável guerra às baratas.
Contam-se histórias por correspondência.
A mesa reúne um copo, uma faca, e a cama devora tua solidão.
Salva-se a honra e a herança do gado. - Nosso Tempo - Carlos Drummond de Andrade



Não consigo falar, as palavras pesam e quando não pesam tornam-se confusas. Tem horas que posso jurar que meus pensamentos foram verbalizados em outra língua. Hoje pela manhã recebi uma dose de medicamentos na veia, não me foi permitido saber qual o nome do poderoso líquido: panacéia ou cicuta? Vida longa ou morte acelerada?

Desconheço as intenções do mundo exterior, apenas sei das tensões do meu mundo interior. Medo? Não, meu organismo não gera mais resposta de alerta por conta de qualquer estimulo mental. Parece que todas as imagens são aceitas como uma idéia de algo conhecido (leia-se conhecido e não reconhecido). É como a história de um homem que de acordo com minhas crenças existiu em minha infância: ele reconhecia as pessoas apenas pela voz, as imagens já não ficavam guardadas na memória. Comigo é o oposto, algumas pessoas me deixam a vontade, sinto certa familiaridade, presumo que de alguma forma alguém ou algo as colocaram aqui dentro, embora não exista nenhum objeto de ligação que me faça reconhecê-las.

A escrita? É minha única ligação de prováveis existências, cartas que nunca foram enviadas...

Cartas que permanecerão para um destinatário do futuro.

Memórias postumas?


Imagem: Jan Saudek


Eu, agora - que desfecho! Já nem penso mais em ti...

Mas será que nunca deixo

De lembrar que te esqueci? - Mário Quintana



Eu tenho pêlos brancos, um mapa traçado na face, meu cheiro mudou, minhas pernas doem, meus braços estão fracos e a claridade do dia entorpece minha visão. Ainda consigo escrever, mas depois de certa hora minhas lembranças somem.

Sinto falta de companhia, sinto falta da estrada (embora ela nunca tenha existido de fato)

Quem é Jamila?

Quem é Beatriz?

Quem é? – tenho quase certeza que muitas coisas na minha vida nunca foram.

Que voz é essa?

De onde vem?

Quem é você?

Pai? - ela chamou-me de pai!

Estou com sono. Ela continua observando-me.

Quem é ela? - ela chamou-me de amor.

Coisas Divinas

Imagem: Victor Cauduro


Deus está morto. - Nietzsche (1844-1900).



Hoje observei meus traços em um pedaço de espelho. Algumas linhas apareceram, alguns traços foram modificados e meus olhos tendem ficar ano a ano mais profundos. É estranho: eu sei me reconhecer, a gravidade dos anos transportou para perto de mim uma parte desapegada, tolerante, racional e pacífica. Sou o famoso homem-médio, senhor da mediocridade, padronizado, mecanizado e industrializado. Reconheço também a inexistência das coisas: a estrada, Beatriz e Jamila desapareceram com alguns medicamentos. Hoje penso no passado como uma aventura de um livro que não terminei. Confesso, a felicidade estava relacionada com o lado fictício da minha vida. O mundo imaginário pertencia a um lado do meu cérebro que os médicos decidiram aposentar. “Agora o paciente aceita e vê o mundo da forma como deve ser vista e acreditada.” Querendo ou não, o médico também sabe que tudo é uma questão de crença. Tudo não passa de um efeito placebo, acreditamos em alguma coisa e esta alguma coisa tem o poder de criar universos, curar doenças, fazer milagres, ressuscitar os mortos e dar vida a seres que no senso comum nunca existiram.

Eu sou uma criação divina e meu mundo é minha criação. Sou o Deus de minhas coisas e a coisa de meu Deus.

A Grande Mentira


Tudo que se pode ver não sou eu. – O Eu Dividido - R.D. Laing


Saí para caminhar um pouco. Precisava entender o que era aquilo. Será que meu sentido olfativo ficou preso nos sonhos ou era todo resto de mim que teimava permanecer nesse mundo da verdade aparente? Se pelos menos Jamila sentisse o mesmo, se pelo menos aquele aroma nauseante visitasse a narina dela, eu não teria sobre nenhuma hipótese duvidado da minha sanidade mental.

Mas e agora? Sinto-me como um náufrago que acorda na beira da praia e não sabe definir se aquilo é o além ou apenas a chance de permanecer vivo. É isso, sou um náufrago, sem alguém semelhante para poder testificar minha atual realidade.

Olho para o céu, olho para as casas e sinto uma grande mentira invadindo tudo, aniquilando o dia a dia – um tipo de mentira que cerca a todos e faz com que derretam em minhas mãos. Se tudo isso aqui é uma falsa realidade, se minha vida é uma falsa realidade, então nada disso aqui existe e a comprovação disso destruiria não sou a minha vida, mas a vida de todos: do dono da padaria, das mulheres que toquei, dos amigos que conquistei, do trabalho abandonado, da desigualdade que enxergo, dos noticiários da TV, do livro que li semana passada, das HQs com seus fantásticos desenhos e roteiros e o pior: a comprovação de que o sabor da comida de Jamila foi uma invenção construída por estímulos cerebrais em junção com o paladar que por sua vez consegue ser enganado no mundo dos sonhos e na aparente realidade.

Sonhos Mentirosos


Eu queria ver no escuro do mundo

Aonde está o que você quer
Pra me transformar no que te agrada
No que me faça ver
Quais são as cores e as coisas pra te prender
Eu tive um sonho ruim e acordei chorando
Por isso eu te liguei - Quase um Segundo - Herbert Vianna


Esses dias tive um sonho ruim – desses que confundem a mente de qualquer humano. Sonhei que minha vida toda era uma grande mentira. Eu estava em um lugar fechado, pessoas observavam-me de uma forma analítica, senti um cheiro de medicamentos misturados e meu corpo encontrava-se totalmente dormente. Consegui ouvir uma conversa entre um homem e uma mulher. A voz feminina era totalmente familiar: “Jamila? Jamila é você? O que eu estou fazendo aqui, amor? Jamila, eu quero ir embora!” Mas percebi que alguma coisa impedia que ela me escutasse, minha boca estava lacrada e o homem dizia a ela que o paciente em questão tinha passado por sérios tratamentos, mas nenhum foi eficaz: “ Infelizmente o paciente insiste em acreditar que é um viajante e que está fugindo de uma tal Beatriz, a família afirma que essa mulher é fruto da sua imaginação e as viagens também.”

Acordei, como é bom acordar... Virei para o lado e Jamila estava ali : com o mesmo cheiro, a mesma camisola, o mesmo jeito de dormir. Tive que abraçá-la, precisava agradecer por ela fazer parte da minha realidade. E era o mesmo abraço, o mesmo jeito de despertar - calmo, delicado e generoso. – O quê foi amor? – ela perguntou aproximando seus lábios ao meu rosto.

– Eu tive um sonho ruim. Sonhei que minha vida era uma grande mentira.

– E agora que você acordou, sua vida é uma grande verdade?

– Não sei. – respondi assustado, pois voltei a sentir o mesmo cheiro de medicamentos misturados.

Jamila


Pequenas Anotações
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Jamila ou como algumas pessoas realmente não estão a venda


Construí métodos alternativos para conhecer o incrível universo humano

Dentre vários o mais importante e eficaz foi: Mostre para o outro o que ele tem a ganhar contigo.

Não é necessário dizer-lhe isso, apenas jogue iscas. Foi assim que conheci Jamila – uma criatura doce, acanhada que não deu muita importância para o que eu carregava. Apenas ofereceu uma cama e o melhor jantar de toda minha vida.

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Condados


Passei um bom tempo percorrendo vilas, cidades, comunidades e o melhor: dormi varias vezes coberto por um bilhão de estrelas – se é que existe um número exato para elas.

Conheci Maranata nessa peregrinação – uma comunidade singular, cujas pessoas parecem conviver bem com a palavra diferença.

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Bares, poemas & rock in Blues


Uma estrada, um bar, uma mesa de sinuca, um som legal que transportou meu nômade coração para leitos quentes e confortáveis. A boca de Jamila baila na minha boca. O corpo de Jamila treme em minhas mãos. Deixo Beatriz para Dante. Queimem no inferno!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Campo sem Flores

Imagem: Jan Saudek



Ser tão sozinho em meio a tantos ombros,
andar aos mil num corpo só, franzino, e ter braços enormes sobre as casas,
ter um pé em Guerrero e outro no Texas,
falar assim a chinês, a maranhense, a russo, a negro: ser um só, de todos, sem palavra, sem filtro, sem opala:
há uma cidade em ti, que não sabemos.
Canto ao homem do povo Charlie Chaplin – Cantar de Amigos – Carlos Drummond .


Dois litros de água e uma carta sem um provável destinatário. Segundo meus cálculos de probabilidade estes escritos seguirão comigo para sempre. A vantagem disso é que adquiri uma caligrafia admirável – quem diria que o garoto sem identidade na escrita um dia encontraria uma letra com personalidade? É ninguém diria e provavelmente ninguém dirá. Três horas da manhã e o hotel continua silencioso, a cama é confortável, mas apesar disso não consegui me transportar para o sono dos justos. Creio que a liberdade adquirida irá manter-me muito tempo acordado. E pensar que quando conheci Beatriz as grades da prisão eram totalmente invisíveis. O sono vinha junto com o aroma de dois apaixonados. E foi assim que tudo começou...
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O PRINCIPIO DE UM CAMPO SEM FLORES


E o tempo que levou uma rosa indecisa a tirar sua cor dessas chamas extintas.
Era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis

Campos de Flores – Amar-Amaro - Carlos Drummond




Quando percebi aquela presença feminina uma explosão interna aconteceu – Big-Bang pessoal ou um cataclisma de hormônios? Foi a primeira vez que a vi. Os olhos pareciam um satélite natural e foi então que senti uma necessidade física de ser regido. O Homem de Ninguém decidiu entregar-se para ser semeado, cultivado e quem sabe produzir uma safra boa – daquelas que além de lucro proporciona um sabor especial. Beatriz dançava bêbada, sorria para todos e de vez em quando me olhava. Eu ali, mais deslocado do que um móvel antigo, fingia não perceber os olhares curiosos daquela mulher que em poucos segundos conseguiu fazer com que meus batimentos cardíacos acelerassem. Sentado no sofá, acompanhado de duas amigas, fazia de tudo para parecer descolado, contudo sempre me dei mal nessa brincadeira de fingir ser quem não sou. O resultado foi uma taça de vinho despedaçada no chão e o riso debochado da mulher oportunista que aproveitou a situação para se apresentar:


- O moço bebeu demais ou foi a taça que não suportou o conteúdo barato?
- Não creio que a anfitriã dessa maravilhosa festa serviria um vinho tão chulo assim.
- Prove o meu espumante e perceba a desigualdade de tratamento que rola por aqui.
- Acho melhor não, pois posso ter a sensação de que não sou tão bem vindo.
- O tratamento pode ser modificado. Mas isso vai depender de sua capacidade de conquista.

Nos apresentamos e depois daquela festa compartilhei não só muitas taças de vinho com Beatriz, mas também noites, manhãs, medos, desejos, sonhos e muitas mentiras. Éramos convictos mentirosos, tão convictos que passamos a acreditar em um futuro: filhos, uma casa de campo, um lugar para Beatriz pintar e eu que até então não abria mão de uma vida nômade passei a almejar apenas uma oficina para por em prática minhas invenções sem utilidade pública. Não sei dizer o que me fez permanecer por tanto tempo, não sei dizer se permaneci verdadeiramente. Uma vez li um poema, não me lembro muito bem o nome do autor, até porque nunca tive o hábito de ler muito, sempre gostei mais de música e rara vezes folheava algum quadrinho. Mas lembro que dizia algo assim: onde não há jardim, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis. Talvez tenha sido assim minha permanência, através de um secreto investimento. Mas onde estão as flores? Será que o Grande Jardineiro não abençôo sua formas improváveis? Observo a paisagem da janela do hotel e tudo que vejo é um solo queimado e uma estrada implorando por minha passagem.



Lisa Alves

A Estrada

Imagem: Jan Saudek
Peguei a estrada e nem mesmo cogitei a idéia de jogar pedacinhos de pão para que Beatriz me seguisse. É estranho, estou sentindo depois de muitos anos uma sensação rara de liberdade. Parei em um desses hotéis de estrada e pedi uma bebida decente, dessas que faz um homem sentir-se forte e soberano diante das circunstâncias da vida. “Por favor, uma dose dupla de água, pois hoje não estou a fim de chorar pelo que ficou para trás”. A moça do hotel encarou-me com um assombro, então repeti: “Eu só quero um copo com água e uma cama confortável.” Ela me entregou uma chave e disse que no quarto teria água suficiente para uma noite inteira. Deitei em uma cama que não me pertence, para ser sincero já tem muitos anos que uma cama não me pertence. É interessante esses lugares feitos para pessoas passageiras: são tão iguais, tão silenciosos e possuem o mesmo cheiro de lavanda. Já ia me esquecendo de mencionar o criado mudo, tão mudo quanto o silêncio ensurdecedor do hotel. Naquele momento uma música visitou minha memória:


“Fique a vontade meu bem

Sinta vontade de ficar

Não tenha pressa

Quem sabe aqui é seu lugar

Mas se tiver de ida

Vê se não vai assim sem mim “


Nestas horas as canções começam a fazer sentido e as lembranças tomam conta. Não, eu não poderia trazê-la! Seria um erro. Beatriz ficou em seu lugar e eu encontrei o meu: nessa estrada, cheia de marcas, onde todos vão e vem exercendo um de seus direitos fundamentais. Ela me procurou, depois de meses deu sinal de vida. Falou da falta que sentia, recordou pequenos dramas, contou sobre a nova exposição de seus quadros, trouxe uma foto que tiramos a beira do lago artificial da cidade. Mas nada daquilo fazia mais sentido, tudo que eu queria era o tempo presente e isso ela não poderia mais me dar. A canção revisitou a mente:



“Diz que quando eu for embora sempre vai me procurar

Não que eu não queira

Sempre eu vou te amar

E em cada estação

Em que não puder estar

Levo essa saudade

Enquanto não posso te levar

E no fim desse sufoco

Espero contar com a sorte

Se ela existe,

Que só a morte possa nos separar. “


Beatriz

Imagem: Jan Saudek


Quando Beatriz deixou-me pensei em abandonar a cidade e nunca mais voltar. Parecia que o mundo lá fora implorava por uma nova exploração. Eu sempre fui bom em descobrir coisas novas, embora me canse delas quando percebo a semelhança com os velhos lugares que pisei. Entenda não é fácil largar tudo e passar uma borracha no que ficou, pois sempre levo na mala todas as sensações de uma localidade. Algumas semanas atrás um amigo confessou que nunca se arrependeu do passado, pois foi exatamente isso que o construiu. Se eu seguisse esse raciocino diria que meu passado me transformou em uma construção inacabada e meus pedaços devem estar espalhados em vários universos humanos. Deixei muitas partes por aí, muitas histórias mal acabadas, muitas palavras não ditas e muitas verdades escondidas. O quê fazer quando não existe volta, quando tudo o que temos é uma estrada onde não é permitido retorno? E pior: como posso reivindicar o que é meu, se o que é meu também pertence ao outro? É complicado estabelecer uma aproximação humana quando o que desejamos de verdade é apenas um pedaço nosso que alguém carrega. Beatriz possuía muito dos meus pedaços, no entanto acredito que eu tinha mais de Beatriz aqui dentro do que poderia imaginar. Não posso partir assim, é necessário um acordo, não posso carregar tanto peso de Beatriz. Mas como convencê-la disso? “Preste atenção, Beatriz! Tem algumas coisas minhas contigo e algumas coisas tuas comigo. Não é nada material, mas é necessário que façamos essa troca!” Ela me chamaria de louco. Diria que isso é apenas uma justificativa para voltarmos. Ela é prática demais para os meus quebra-cabeças. Sem falar na minha incapacidade de quantificar com exatidão o que aquela mulher carrega disso que sou eu. Lembro quando fazíamos amor e logo após ela adormecia. Acredite, nem todos os homens dormem depois de uma boa transa e nem todas as mulheres esperam por um pouco mais de amor. Eu precisava contemplar a minha jogadora de prazeres, precisava vigiar o seu sono e sua respiração. Tenho uma necessidade existencial de analisar as reações humanas depois de um contato íntimo. Sou daqueles caras que depois de uma prosa no boteco leva os amigos para casa apenas para ter certeza se ainda sobra algo válido além do álcool. Sou o tipo de cara que empresta seus objetos mais valiosos, apenas para ver se haverá o dia da devolução. Também faço questão de não me surpreender com as confissões de pecado, pois a naturalização do bizarro é o principal escudo de um explorador. Creio que herdei isso de meu pai, o velho tinha uma fascinação exagerada por tudo que era considerado exótico. Hoje terminei de arrumar as malas, não sei o que esperar da nova cidade, nem sei se algo ou alguém me espera. Doei todos os meus casacos de inverno, encaixotei os livros e pichei todas as paredes. Procurei me informar sobre a temperatura da nova terra e algumas fontes me disseram que o calor de lá é capaz de enlouquecer a mente mais equilibrada do mundo. Isso indica que hospícios não faltam e se eu tiver sorte, consigo um desses cinco estrelas, com direito à remedinhos três vezes ao dia. Sempre tive curiosidade de saber como é viver dentro de um local onde você recebe tratamento para curar a loucura: os loucos individuais lá de dentro, são preparados para viverem como os loucos coletivos daqui de fora. Minha mãe tinha razão: eu ainda não aprendi a conviver com a loucura coletiva, minha insanidade é excêntrica demais. Ainda não procurei Beatriz, pensei em telefonar durante a viagem, assim não existiria a chance da desistência. Mesmo que ela implorasse ou exigisse meu retorno, eu já estaria totalmente entregue à estrada. Me conheço o suficiente para saber que depois do primeiro passo a possibilidade da meia volta é nula. Mas é aí? O peso de Beatriz continuaria ainda comigo. E eu me sentiria culpado de carregar uma bagagem que não me pertence. Será que ela sente culpa? Será que ela consegue me sentir ou suspeita que carrega algo meu? A resposta pode estar próxima da realidade dos meus dias: dias estes que estão cansados da espera por um telefonema ou até mesmo de batidas inexistentes na porta. Ela me esqueceu, isto é certo! Beatriz dorme tranqüila, pois não sabe que um pedaço dela se encontra em outro local. Ela não tem noção de sua incompletitude. Infelizmente, eu tenho e sofro pelos meus pedaços e pelos pedaços que nunca me pertenceram.



Lisa Alves